A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) é uma perturbação do neurodesenvolvimento que se define pela presença de dificuldades ao nível da comunicação, da interação social, bem como de padrões comportamentais repetitivos e/ou interesses restritos. O desenvolvimento da criança sofre alterações, o que leva a uma maior dificuldade na aquisição das diferentes competências relacionadas com os domínios, cognitivo, motor, afetivo e relacional.
As funções motoras da criança com PEA podem caracterizar-se pela presença de movimentos reveladores de uma maior lentidão ou, pelo contrário, de maior rigidez, observando-se ainda dificuldades ao nível da coordenação, da intencionalidade e fluidez do movimento, da manutenção do equilíbrio, da postura, da orientação espacial e do tónus desajustado.
Mais de 80% das crianças diagnosticadas com PEA revelam dificuldades na aquisição de competências motoras, o que influência negativamente o dia-a-dia das crianças nas suas brincadeiras e consequentemente na relação com os pares.
Do ponto de vista relacional, as crianças com PEA tendem a “isolar-se” no seu mundo interno, evitando o contacto com o ambiente envolvente, o que consequentemente afeta o estabelecimento de relação com os outros. Pode ocorrer também alguma rigidez cognitiva, desregulação emocional, problemas ao nível da integração sensorial, do sono e da alimentação.
Quais os sinais de alerta?
O diagnóstico precoce é crucial uma vez que possibilita à criança aceder aos benefícios da intervenção terapêutica nos primeiros anos de vida. É também importante para que os pais recebam as devidas orientações e estratégias para auxiliar no processo terapêutico e o mais importante: melhorar o bem-estar e qualidade de vida da criança e da família.
Estes são sinais de alerta que poderão estar presentes:
- Não responder às tentativas de interação e dificuldade em manter o contacto ocular;
- Não responder pelo nome;
- Desregulação emocional e do comportamento (“birras” recorrentes, mesmo que sem motivo aparente);
- Comportamentos heteroagressivos como morder, pontapear, arranhar, entre outros;
- Comportamentos autoagressivos como bater-se a si própria, morder-se;
- Conjunto de interesses muito restritivos e particulares sobre um determinado tema;
- Não fazer gestos como apontar para algo que tem interesse;
- Estereotipias e comportamentos não funcionais: alinhar, rodar e ficar fixada em objetos. Ordenar formas e cores sempre da mesma forma;
- Dificuldades na linguagem verbal: não formular frases, vocabulário restrito, deixar de dizer palavras que já utilizava;
- Alteração de entoação, velocidade e ritmo das palavras;
- Ecolalia: repetição de palavras ou parte das mesmas;
- Caminhar nas pontas dos pés, movimentos estereotipados como balançar repetido das mãos, saltar, rodopiar, bater palminhas, entre outros;
- Dificuldade no processamento da informação sensorial: Hipersensibilidade (sensibilidade aumentada a determinados estímulos, por exemplo sonoros). Hipossensibilidade (exemplo diminuição do limiar de sensibilidade à dor).
Porquê a Intervenção Psicomotora?
Porque a criança desenvolve-se e aprende através do brincar e da relação com o outro.
O psicomotricista tem a função de acompanhar, acolher, escutar e conter. Tornando-se um agente de escuta ativa ao colocar em análise a criança como um todo, onde ocorre uma procura do significado por trás do que é observável. Desta forma a criança não é reduzida a um conjunto de sintomas, mas sim portadora de uma história única que a define. Permiti-lhe expressar-se e vivenciar experiências prazerosas na relação com o outro de forma a identificar e consciencializar o seu Eu.
Durante os jogos que envolvem movimento,música e diferentes ritmos é possível melhorar significativamente as competências motoras, a orientação espacial, a coordenação e a perceção do funcionamento do próprio corpo. O que consequentemente promove uma melhor compreensão e expressão das emoções, bem como uma maior abertura ao nível da comunicação com o seu mundo externo.
A intervenção psicomotora permite às crianças com dificuldades em expressar-se de outras formas que não pela via corporal, uma forma de comunicação. Quando existe ausência de linguagem verbal, linguagem sem intencionalidade comunicativa, vivências primárias que não foram consciencializadas e ficaram gravadas sensorialmente, dificuldades em manter o contacto visual, fraca dificuldade de simbolização ou dificuldades ao nível da consciência do Eu. Na presença destas questões, a psicomotricidade promove a espontaneidade e expressão do que existe em desconforto ao nível do inconsciente, permitindo assim uma ação de afirmação e consciencialização do próprio.
Na intervenção psicomotora, as aquisições são favorecidas através de uma abordagem lúdica que providencia oportunidades de exploração e aprendizagem com foco nos pontos fortes, motivações e interesses da criança. A terapia atua através do jogo e do movimento, tendo como base um ambiente onde a criança se sente segura e confortável para Ser e Agir como verdadeiramente é, sem máscaras. Os objetivos e estratégias são estruturados tendo em conta as necessidades específicas e individualidades de cada criança.
“Psicomotricidade é a expressão corporal do funcionamento psíquico. Psicomotricidade é o que, no comportamento humano, diz respeito à expressão corporal das emoções, sentimentos, vivências, fantasias e pensamentos” – João dos Santos
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Cláudia Rodrigues
Psicomotricista no Centro Pediátrico Susana Wilton

