O sistema respiratório do teu bebé começa a sua formação na quarta semana do seu desenvolvimento, após a fecundação. Ao longo de todo o processo existem inúmeras alterações e estruturas em desenvolvimento, cerca de 95% dos alvéolos maduros desenvolvem-se no período pós-natal.
Antes do nascimento, os alvéolos primitivos aparecem como pequenas protuberâncias nas paredes dos bronquíolos respiratórios e dos sacos alveolares, após o nascimento, o aumento no tamanho dos pulmões dá-se pelo crescimento exponencial no número de bronquíolos respiratórios e alvéolos primitivos.
O desenvolvimento alveolar dá-se até aos 3 anos de idade, mas só fica concluído aproximadamente aos 8 anos sendo esta a idade até à qual se dá a maturidade do sistema respiratório da criança.
A anatomia e fisiologia do sistema respiratório em desenvolvimento predispõem a criança a problemas que não são vistos no sistema respiratório maduro de um indivíduo adulto, pelo que a abordagem deve ser especializada.
Pelas particularidades do sistema respiratório dos bebés e crianças, estes estão mais suscetíveis a problemas respiratórios e consequentemente alterações do padrão respiratório.
Esses problemas respiratórios manifestam-se nas crianças, especialmente nos primeiros cinco anos de vida, pela suscetibilidade e imaturidade do trato respiratório nessa faixa etária.
Doenças respiratórias
As doenças respiratórias podem ser agudas ou crónicas, de acordo com o tempo de evolução e resolução. As doenças respiratórias agudas começam rapidamente, exigem um tratamento imediato e a cura é, normalmente em menos de três meses.
As doenças respiratórias agudas podem ser denominadas de acordo com a ocorrência de um processo inflamatório infecioso, ou não-infecioso, sofrendo a influência de agentes patogénicos, fatores alergénicos e traumas.
São classificadas em infeções altas e baixas, diferenciando-se pelo grau de manifestação no trato respiratório: as doenças respiratórias altas têm, em geral, curso benigno e são autolimitadas, já as doenças respiratórias baixas tendem, a estender-se por períodos maiores de tempo e, se não tratadas, podem colocar em risco a vida das crianças.
As doenças respiratórias crónicas têm um início e evolução graduais e exigem intervenção medicamentosa de modo prolongado, durante mais de três meses, podendo estender-se para toda a vida. Caracterizam-se por uma alteração do estado normal das vias aéreas ou das restantes estruturas do pulmão, que se desenvolve e perdura ao longo do tempo. Dentro deste grupo, as doenças que mais se destacam são a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e a Asma.
Além de fatores externos, as doenças respiratórias também podem ser genéticas, passando de mãe para filho, por exemplo. Isso significa que algumas pessoas já nascem com elas, como é o caso de pessoas que têm asma desde a infância.
Principais doenças respiratórias na criança
As doenças respiratórias podem ter um efeito de longo prazo na qualidade de vida e até no desenvolvimento da criança. Sem um tratamento eficaz, o problema pode tornar-se crónico e persistir na idade adulta. As principais doenças respiratórias na infância são: Asma, Bronquiolite, Sinusite, Rinite e Pneumonia.
A recorrente congestão nasal (típica das crianças até aos 5 anos), muitas vezes, evolui para infeções respiratórias e poderá contribuir para alterar o padrão neurológico respiratório, produzindo os, cada vez mais comuns, “respiradores orais”.
A Respiração Oral
Uma das alterações do padrão respiratório mais frequentemente observado nas crianças é a designada “respiração oral”.
Uma criança com este padrão é assinalada como “respiradora oral”. Um respirador oral possui uma capacidade respiratória nasal restrita, que o leva a respirar pela boca na maior parte do tempo. A respiração oral pode ser considerada uma síndrome, pois apresenta vários sintomas como alterações oro-faciais, posturais, maloclusão e distúrbios de comportamento.
O impacto deste tipo de respiração não se cinge a alterações físicas e fisiológicas, mas também contribui negativamente para a saúde mental e emocional das crianças. Distúrbios de comportamento tais como a inquietação, a irritação, a desatenção, o sono agitado, a enurese noturna e a sonolência durante o dia são, muitas vezes, sinais de que a criança não está a fazer uma respiração nasal apropriada, afetando a sua concentração e interferindo negativamente no seu desempenho escolar.
A Reeducação Funcional Respiratória
No Centro Pediátrico Susana Wilton a intervenção na saúde é multidisciplinar e com enfoque na Prevenção. Face à vulnerabilidade respiratória de muitas crianças, é muito comum, perder-se a simples capacidade de usar o nariz para respirar. Como já vimos anteriormente, isto traz muitos prejuízos para a saúde da criança (a vários níveis) e o tratamento corretivo deve iniciar-se o quanto antes.
O Enfermeiro Especialista em Reabilitação assume uma intervenção de destaque nos três níveis de prevenção. No âmbito da prevenção primária, foca-se na educação e capacitação da família para a promoção da saúde respiratória e prevenção das doenças respiratórias agudas. No âmbito da prevenção secundária centra-se em detetar um problema de saúde em estágio inicial, muitas vezes em estágio sub clínico, a prevenção terciária corresponde à ação implementada para reduzir os prejuízos funcionais consequentes de um problema agudo ou crónico, incluindo a reabilitação.
Assim, a Reabilitação Respiratória que engloba a Reeducação Funcional Respiratória, competência dos enfermeiros especialistas em reabilitação, são um conjunto de técnicas e exercícios que visam melhorar a eficiência respiratória e a
função pulmonar. Essa abordagem é frequentemente utilizada em casos de condições que afetam a respiração.
Os objetivos da reeducação funcional respiratória incluem:
- Melhoria da ventilação pulmonar: Aumentar a capacidade respiratória e facilitar a troca gasosa nos pulmões.
- Fortalecimento da musculatura respiratória: Desenvolver a força e a resistência dos músculos que participam da respiração, o que pode ser especialmente importante para crianças com condições que afetam a força muscular.
- Educação sobre a respiração: Ensinar técnicas de respiração adequada e proporcionar estratégias para gerenciar episódios de dificuldade respiratória, como por exemplo em crises de asma.
- Promoção de hábitos saudáveis: Incentivar a atividade física e hábitos que beneficiam a saúde respiratória das crianças.
A reeducação funcional respiratória é uma abordagem terapêutica que visa corrigir padrões inadequados respiratórios e melhorar a mecânica respiratória. De modo a que se faça um acompanhamento assertivo da evolução respiratória, é preenchido um questionário no inicio e no final do tratamento, assim garantimos que vários critérios respiratórios importantes ficam corrigidos e ultrapassados.
As técnicas da Reeducação Funcional Respiratória incluem:
- Educação e Consciencialização: Através de exercícios e orientações, as crianças aprendem a importância e benefícios da respiração nasal, como por exemplo uma melhor filtragem e umidificação do ar para além da promoção de um crescimento crânio/facial adequado.
- Exercícios Respiratórios: Técnicas específicas para fortalecimento dos músculos respiratórios e incentivo ao uso do nariz respirar. Usam-se exercícios de respiração diafragmática de modo a otimizar a capacidade pulmonar e a
eficiência respiratória. - Correção Postural: A postura influencia a mecânica respiratória (e vice-versa). A reeducação postural global (orientada em colaboração com o osteopata pediátrico) inclui correções musculoesqueléticas que facilitam uma respiração mais eficiente e favoreçam o uso do nariz ao invés da boca.
- Treino de Hábitos: A prática regular de técnicas de respiração e a consciencialização dos momentos em que a criança respira pela boca podem ajudar a reverter esse hábito. O uso de jogos e atividades lúdicas pode tornar essa aprendizagem mais atrativa.
- Reforço e Motivação: O acompanhamento profissional pode oferecer suporte e motivação, ajudando a criança a manter o foco nas mudanças desejadas e a perceber os benefícios da respiração nasal.
- Integração com Outras Terapias: Em alguns casos, a reeducação funcional pode ser combinada com outras abordagens, como a osteopatia, odontopediatria ou terapia da fala de modo que o tratamento seja completo e
efetivo.
Alterar o padrão respiratório pode resultar em benefícios significativos para a saúde geral da criança, incluindo a melhoria na qualidade do sono, desempenho escolar e redução de problemas respiratórios, como asma e alergias.
A intervenção precoce é essencial, pois hábitos de respiração inadequados podem ter impacto a longo prazo no desenvolvimento da criança.
A reeducação funcional respiratória pode ser uma ferramenta valiosa para promover uma respiração saudável e adequada, promovendo um crescimento livre e uma vida feliz.
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